Ontem um amigo me contou que estava em um ônibus, aqui em São Paulo, quando assistiu à seguinte cena: uma mãe ao lado do seu filho jovem com paralisia cerebral fez sinal para o veículo parar. Pegou o filho pelo braço e foi arrastando o rapaz pelo corredor até a saída, enquanto gritava para alguns passageiros: “O que estão olhando?” Segundo esse meu amigo, a mulher era a própria Megera encarnada.
E eu me vi nessa mulher, daqui a alguns poucos anos, caso eu não tivesse acesso às informações que tenho e não tomasse as atitudes que venho tomando para prevenir esse colapso emocional/existencial.
Li hoje o texto que dona Maria Amélia escreveu protestando contra a nomeação de uma médica para encabeçar a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Neste texto ela narra com muita apropriação (afinal ela faz parte dessa história) como foi difícil a transição entre o modelo médico de inclusão e o modelo que eu chamaria de parental. Quando setores representativos da sociedade passaram a dar voz aos pais das pessoas com deficiência. O que já foi um avanço.
Enquanto lia, lembrei de várias situações acontecidas comigo, como mãe, e dessa história que meu amigo me contara.
Lembrei de quantas vezes, em vez de ser a mãe da minha filha, fui sua terapeuta. Em vez de ser a mãe da minha filha, fui sua pedagoga. Em vez de ser a mãe da minha filha, fui sua assessora de comunicação. Em vez de ser mãe da minha filha, fui sua advogada.
E eu só queria ser mãe. Amar a minha filha, brincar com ela e ver quem ela é, antes de olhar para a deficiência.
E todos me diziam o quanto eu era “especial”, o quanto eu era “lutadora”, o quanto eu era “guerreira”, “heroína” etc.
E eu só queria ser mãe.
Essa megera do ônibus. Ela só quer ser mãe. Mas como ser “apenas” uma mãe num ônibus sem acessibilidade, lotado de cidadãos que desconhecem (por falta de educação e informação) que aquele rapaz com deficiência também é um cidadão. Que deficiência não é coitadice. É apenas mais um estilo de vida. Circunstancial, mas um estilo. Que pode ser tão digno e feliz como qualquer outro.
Como essa mulher pode ser “apenas” uma mãe se esse menino provavelmente vive segregado em uma “escola” que dizem ser “especial" (se não está confinado em casa, por tantas dificuldades). Enquanto todos os garotos da sua geração vivem a vida aqui do lado de fora.
Então eu gostaria de me juntar ao protesto de dona Maria Amélia, do Fábio Adiron e de muitos outros pais que lutam pela inclusão e pelos direitos dos seus filhos com deficiência. Apenas quero acrescentar que desejo um país que encare a deficiência não como um problema médico, com certeza, mas muito menos como um problema parental.
Deficiência é assunto de todos, para todos. Uma questão social (e isso inclui, além de todas as esferas do poder público e privado, organizações não governamentais e sociedade civil, a participação, é óbvio, das próprias pessoas com deficiência).
No livro “Por que Heloísa?” que escrevi, com base na história da minha filha, Luísa, há o seguinte parágrafo:
“Puxa, se os médicos salvaram nossa filha, por que a cidade não está preparada para recebê-la? Afinal, Heloísa tem os mesmos direitos de qualquer outra criança, não é? Brincar, estudar, passear... Não adianta só salvar.”
Então, vamos agora evoluir do modelo parental para o modelo social. Voltar para o modelo médico, nem pensar, governador José Serra!
11 comentários:
Oi Cristiana, adorei seu livro!
Meus pais também já agiram dessa maneira algumas vezes, rsrs...
Se dependermos do modelo médico estamos fritos de vez,sempre acham que somos mais incapazes do que a capacidade de diagnóstico deles.
Nem mesmo em congressos sobre portadores de deficiências temos acesso livre. Não existem rampas, linguagem de sinais,etc, etc, etc...
Quando será que realmente vamos ter mudanças?
pois eu vivo na bélgica, que é bem mais avançada que o brasil nestes termos de acessibilidade e direitos...mas ainda assim me fiz a pergunta algumas vezes...foram 2 meses de uti neonatal, contas hospitalares astronômicas (que ainda estamos pagando) e o mundo nao está preparado para o seu filho...estou tentando conseguir uma vaga para ele numa creche (pelo menos dois dias por semana)...este seria o tempo para eu ser mais mae e menos terapeuta...
Muitíssimo bem dito Cris! Ótimo texto como sempre, mas principalmente ótimo conceito, o de todos serem apenas o que são, mães, crianças, cidadãos...
Keiko
É isso mesmo o x da questão!!!!!!
Parabéns pelo texto!
Como sempre!!!
Belo post, amiga...
Sei bem do que falas...sou terapeuta vezes demais...somos todos...coisas que não deviamos, nem queriamos. Até o fariamos, mas gostariamos de ter uma alternativa .
Um beijo transatlântico.
Como fazer quando encontramos este problema dentro de casa?
Seria ótimo não termos de ser terapeutas dos pais dos filhos com PC, acredito que existam as excessões, porém na maioria das vezes a maior barreira é dentro do lar. Acompanho diversos comentários e, sempre são feitos por mães, por que será? Seremos assim tão fortes para termos de aguentar tudo sozinhas e ainda sermos terapeutas da família?
Acredito que o modelo de mãe também deveria evoluir, pois toda responsabilidade está sobre nossos ombros e, isso não é justo, somos seres humanos, precisamos de compartilhar, sentirmos segurança, para podermos passar essas coisas boas aos nossos filhos e vê-los se defender desse mundo ainda tão mal informado e despreparado para recebe-los.
Muito obrigada pelos comentários das outras mães. Acho que todas vcs me entenderam bem, né? :-)
Cristiana, eu agradeço muito a sua atenção, não sou nada refinada, ou instruida sobre a pc a ponto de debater com experts, porém, sou mãe de uma criança maravilhosa que tem suas sequelas. O maior problema que já enfrentei foi a dor de ouvir meu filho dizer que desisti de minha família, pois não tenho mais como suportar depois de oito anos de humilhação, ausência, enfim tudo o q vc possa pensar de pior de um homem que por 19 anos foi maravilhoso comigo e após o nascimento do filho, está nos fazendo pagar o que não devemos. Acredito ainda que este tipo de situação seja muito comum, pois como comentei antes, os depoimentos nos provam. Existe ainda pessoas que usam a PC para se auto promoverem de maneira muito sórdida e isto me deixa muito indignada. Sei que vc deve estar passando por um momento muito forte de adaptação, porém, como vc mesma disse, sua filha tem quinze anos e vc a vê feliz com a nova situação. Espero que o pai a acolha sem procurar culpados e que apenas a ame pelo o que é. Desculpe pelo desabafo, mas a muito tempo venho observando vários depoimentos e me segurando para não comentar. Desejo tudo de melhor pra vc e sua filha.
Anônima, não se desculpe pelo desabafo. É pra isso mesmo que estamos aqui. Para ouvirmos umas as outras. Conversar, trocar experiências. Fique à vontade nesse espaço para falar o que quiser.
Muitas mulheres já passaram (ou estão passando) pelo que vc relata, em maior ou menor grau.
Caso queira, entre em contato comigo pelo e-mail: cristiana.sr@gmail.com
Assim, poderemos detalhar mais as nossas histórias...
um beijo carinhoso e te aguardo
Olá
Queria convidar-te para me visitares e deixares lá o teu sapatinho!!!!!!!!
http://florderiscas.blogspot.com/
Sim as Mães afinal acabam, mesmo que evoluindo, por estar sempre lá ... e elas não podem deixar nunca de ser terapeutas, pedagogas, interpretes... eu sei lá, "feras" por vezes... um mundo infinito de versatilidades que são apanágio de mulheres - mães de crianças com handicap(s) e ao mesmo tempo de crianças sem handicap ... um universo que se lhes/nos põe à prova...
Inclusão Sim, Sempre, Toda a Vida, resistindo, incluindo, Sempre!
parabéns Cris,
cris
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