12 de dezembro de 2002. Nunca vou esquecer o dia em que eu descobri que o bebê na minha barriga tinha algum problema no cérebro. Daí em diante minha vida se transformaria. Demorou ainda algum tempo para descobrirem exatamente qual a extensão do problema. Nesse tempo fui tratada não como uma pessoa mas como uma patologia. Era como se eu não existisse. Até 20 de janeiro de 2003, quando meu filho nasceu, me pareceu uma tortura a espera. Esperar por alguém que teria um comprometimento que ninguém sabia me dizer como seria. Que angústia!
Saímos da maternidade depois de onze dias em observação, porque no primeiro dia a respiração não estava boa e o neurologista resolveu medicá-lo. Quando eu peguei meu bebê para levar para casa, a última palavra da médica foi para me dizer que eu tinha que estar preparada porque ele poderia morrer a qualquer momento. É claro que na primeira dor de barriga que ele teve quem quase morreu fui eu!
Aí começou aquela seqüência interminável de médicos e terapeutas que vocês já conhecem. Nos dois primeiros anos passamos por várias internações. Já estávamos “habitués” de U.T.I.
Vivi quatro anos lutando com a depressão que insistia em voltar com uma certa freqüência. O mais difícil talvez tenha sido viver nessa incerteza. Ter o leque de desgraças que os médicos me mostravam desde a gravidez como possibilidades para o meu filho, seria angustiante demais para qualquer mãe.
E eu sempre esperando que ele fizesse progressos, e esses progressos nunca vinham. Acho que minhas expectativas eram altas demais.
Aos dois anos ele teve crises convulsivas que quase o levaram à morte. Eram crises atípicas e os médicos não conseguiam um diagnóstico. Demorou uns vinte dias para descobrirem que a origem do problema poderia ser cerebral e resolverem medicar.
Nunca mais ele teve nada e nem foi mais internado. Desde então ele está bem, dentro das possibilidades dele. Mas eu fiquei muito desanimada. Entendi que meu filho era daquele jeito, com um comprometimento bastante grave, e que não havia nada que eu pudesse fazer além do que eu já fazia.
Para mim isso significou o fim da minha vida, dos meus sonhos, de todos os projetos pessoais e profissionais. Significou me afastar das pessoas, dos amigos, da família, e até evitar falar do meu filho. Eu era o retrato da infelicidade e da tristeza.
Mesmo assim eu continuava lutando e brigando pelo meu filho em tudo o que estava ao meu alcance. Mas achava que felicidade era coisa para os outros e que eu nunca mais retomaria a minha vida.
Este ano, quando voltamos das férias, retomamos a rotina de médicos e terapias do André. Ele começou a fazer terapias novas e logo de cara eu fui descobrindo do que meu filhinho era capaz. Os terapeutas começaram e me dizer e a me mostrar como ele entendia tudo, aprendia e tentava se comunicar mesmo sem conseguir falar. Trouxeram-me até a possibilidade de aprendizagem escolar mesmo.
Fui descobrindo o meu filho. É como se a pessoa dentro daquele corpo começasse a aparecer. Isso para mim foi uma descoberta incrível!
Na primeira semana de fevereiro levei-o para comprar óculos novos. Experimentamos vários. Escolhi um bem delicado, lindo. Mas ele não quis. Gostou mesmo foi do vermelho. E não teve jeito. Não me deixava mais colocar outro. Só queria o vermelho. A atitude dele me surpreendeu. Então é claro que eu deixei.
Entender meu filho, vê-lo manifestar seus gostos e vontades é algo que não tem preço. Não achava que um dia ele iria ter sequer essa capacidade de algo que parece ser tão banal como escolher óculos.
Para quem tem um filho sem deficiência ou com um comprometimento pequeno, isso pode parecer bobagem, mas pra mim mudou tudo. Agora eu sinto que tenho meu filho, que ele é alguém com quem eu posso interagir, e a quem eu posso ensinar coisas. Isso me transformou, mudou minha vida. Meu relacionamento com ele ficou prazeroso e eu voltei a ter alegria e vontade de viver. Não jogo mais todas as minhas expectativas no desenvolvimento motor do meu filho.
Sim, ele precisa de cadeira de rodas, de órteses e uma porção de acessórios adaptados. O que me importa agora é que ele é um garoto lindo, feliz e esperto. E, claro, que escolheu usar óculos vermelhos!
15 comentários:
Além de lindo, o André tem bom-gosto. Adorei os óculos vermelhos!
Tive que me recuperar um pouquinho das lágrimas para poder tentar escrever alguma coisa com um mínimo de coerência....
Lina, embora Emanuel não seja tão comprometido quanto o Andre (apesar de eu estar dscobrindo que tb não é tão pouco comprometido quanto alguns profissionais me falam) eu consigo sentir no meu coração cada palavra sua.
Eu tenho um temperamento diferente do seu, então exteriorizei as coisas de outra maneira...mas o sentimento é o mesmo...os medos, as incertezas, as tristezas, as frustrações e a alegria da descoberta do novo caminho
As coisas que me deixam mais feliz nesta vida são ver meu filho fazer coisas simples que as crianças neurotípicas fazem, ainda que coisas que eu jurava que ele jamais faria, como vê-lo recusar suco porque quer coca cola e não querer ir tomar banho porque esta passando Backyardigans na tv ou fazer birra no parquinho pq viu o homem do algodão doce...isso faz com que eu tenha o mesmo sentimento que você..."posso interagir com ele, meu filho enfim não é o pezinho de alface que eu tanto temia, é um menino que sabe do mundo ao seu redor...podemos descobrir juntos maneiras dele seguir em frente, ainda que a seu modo e a seu ritmo"....
Sabe,acho sinceramente que temos os filhos que precisamos para superar nossas limitações...pois através do amor a eles e da força materna somos capazer de superar situações e sentimentos que antes deles nem sonhávamos...eles fazem brotar dentro de nós uma força que beira a divindade...o desafio esta em ter a sabedoria para saber aproveitá-la...
E este texto mostra que vc esta encontrando essa sabedoria, pois a força sempre teve...
Lindo, emocionante...parabéns a vcs!!!
PS: eu ammmmeeeiiiiiiii os óculos vermelhos....muito fashion, com certeza eu o escolheria para o Emanuel....são a minha cara...mas ele com certeza vai querer um bem discretinho..kkkkk
Filhos!!!!
Lina que bom que está conseguindo ser feliz...assim parece que o problema fica mais fácil !!!
O André realmente é lindo e os óculos uma graça!!!
Parabéns pelo texto!!!!!!!!!!!!
Muito legal a historia. E creio q eu tbm me senti infeliz ao me falaram um monte de coisas q minha minha filha nao poderia executar etc.., mas poxa ela ainda e so um bebe, e sei la creio q da mesma forma q vc se surpreendeu com o Andre, tbm irei me surpreender com ela, e questao nao so de aceditar, mas tbm de ter confianca neles e nos profissionais que trabalham com eles,senao que adiantaria de tantas terapias, se nos mae tbm nao passassemos seguranca e credibilidade na resuperacao de nossos filhos.
Muito legal a historia e as vezes ainda sinto um sentimento triste, porem nao me dou por vencida, acho q essa e a ideia, como dizem os americanos, nunca "give up", nunca se render digamos assim.
Ele teve um otimo gosto, que oculos lindo, a Giulia tem um cor de rosa, mas tirou ferias ( nunca fica com ele) srrs.
Um bj nos 2 .
Minha querida
Estou aqui com o coração nas mãos...eu entendo muito bem...também o meu mundo desabou, como contei aqui anteriormente. Mas ultrapassei. O facto de se achar que cognitivamente estar bem, deu-me muita força e entendo a sua alegria relativamente a isso. Deus não dá um fardo maior do que conseguimos suportar. Entregue-se de corpo e alma a esse filho maravilhoso. A aparência vale muito pouco na nossa vida. Foi preciso o meu filho nascer poara interiorizar por completo essa ideologia, mas hoje olho para os meninos e meninas especiais, como potenciais baús de ouro, ainda por descobrir...Estou contigo para saber mais novidades, o vosso percurso e obrigado por partilhares de forma tão aberta e expontânea. Um bem haja para vocês !
Lindo... maravilhoso!!
E viva os óculos vermelhos!!
:)
Mil bjs
Oi LINA!
Histórias como as suas, me ajudam a compreender tudo que meus pais passaram, e a dar ainda mais valor a tudo que fizeram por mim.
Beijos pra voces.
Lina, que depoimento maravilhoso, mágicos esses óculos vermelhos e esse sorriso do seu filho. Um enorme abraço aos dois.
Lina, nenhuma mãe está pronta para um filho "não-perfeito". Idealizamos o nenê capaz de encantar a todos e estampar a capa da Pais & Filhos. E depois, a grande maioria dos médicos insiste em prognósticos horríveis e imprecisos. Como tão bem postou a Grilinha, tempos atrás, aqui - somos completamente desorientados. Mas ter filhos com PC é uma lição diária e imensa. Que bom que estás conseguindo superar tuas próprias barreiras e ver o menino que existe por trás do cérebro (ou muito além dele).
Parabéns pra vc e pro André, pela bela escolha dos óculos vermelhos.
Bjs!
eu axo q a evolução de um pc, por mínima q seja, é um grande motivo p comemorar. eu por exemplo. se eu tirar carteira vai ser um salto enorme p mim.
parabéns a vcs
Só posso agradecer a todos o apoio, a compreensão e os elogios a mim e ao meu menino, que eu acho lindo mesmo!!!!
Pensei bastante antes colocar esse texto aqui no blog. É muita exposição das minhas dores. Mas acho que valeu a pena. Obrigada.
Oi Turma boa de conversa
Tenho um sobrinho. o Marlinho, que tem essa condição da PC. É alegre e sorridente, que nem o André. Ele já está mais grandinho também.
As ações de apoio mútuo, são sempre muito importantes porque multiplicam esperanças ao dividir solidariedade.
Parabéns por compartilharem suas histórias de vida. Selecionei este post sobre o André para citar lá no meu blog, mas sintam-se todos abraçados :)
Quem quiser conferir é só clicar:
olhar cidadão e a força das comunidades
Parabéns André pelos óculos vermelhos, ficam-te muito be, bom gosto estás na moda****
Parabéns mamã coragem e papá surtudo, é bom ter uma família feliz, as diferenças não importam, mas sim as atitudes, essas são as mais importantes. Sejam felizes junto do vosso André.
Oi Lina,
Quando é que essas mamães vão aprender que a Internet permite troca de experiências e vivências num nível bem interessante. Certas situações são verdadeiras catarses grupais, você não acha? Quem "canta" seus, males espanta! É por aí...
Recebi seu simpático email. Nada mais fiz que dar uma força. Não dei depoimento também, porque isso talvez quem deveria fazer é minha prima, a mãe do Marlinho (meu sobrinho PC), mas como ela vive offline, talvez ainda não entenda o poder de uma comunidade, né!
O que eu sei é que esse processo de cura é sistêmico, envolve completamente o grupo familiar, envolve aceitação, compreensão, novos olhares, para além da visão estigmatizada, né!
E ainda tem o outro lado, que é a visão alienada, altista, em que certas famílias se metem, pra "tentar não ver" o que está na cara. Uma fuga certamente, mas compreensível, of course!
O caminho é esse, minha cara, compreensão e superação, "cada um com seu cada qual". Já ouviu falar que karma ruim vira karma bom, dependendo do entendimento e do aproveitamento da oportunidade?
E quantos resgates a sua condição poderá trazer? Não exatamente a sua condição, mas o nível de amadurecimento que ela te trouxe e a distância em relação a outras famílias que ainda estão brigando com o preconceito e tal?
Se tivesse que destacar uma única coisa na sua fala, ressaltaria isso, que me pareceu SEU grande aprendizado.
Mãos a obra. Escrevam, escrevam, escrevam.... e compartilhem :-)
Convidem especialistas para escrever regularmente no blog também. Mas jamais abram mão dos depoimentos, em nome de uma suposta "autoridade". O que faz o blog pulsar (e que pode até se tornar um exemplo para outras comunidades) são as histórias de vida e de superação. É isso que interessa, no final das contas.
Não fiquem só no orkut pq lá é fechado. Combinado?
Até a próxima.
Alexandre
Nossa, Alexandre, que comentário sensacional! Um dos melhores que já li aqui! Obrigada por tudo que disse!
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